Um ano se passou! E entre aquele instante em que pisei o solo Canadense – dia 14 de setembro de 2006 - e as dez horas de vôo que me separavam dos 31 anos de vida (familia, pessoas, amigos, coisas, cheiros e experiências) deixados para trás, veio a lembrança do bate-papo com o primo Murilo às vésperas do embarque : “Prima, boa viagem e não se esqueça de ir com a xícara vazia!”
O meu querido primo e companheiro de altos papos filosóficos referia-se à uma história
zen-budista. Certa vez, o mestre japonês Nan-in concedeu uma audiência a um professor de filosofia. Ao servir o chá, Nan-in encheu a xícara de seu visitante mas continuou despejando sem parar. A certa altura, o professor não se conteve: “Pare, a xícara está mais do que cheia. Nada mais cabe aí”, disse ele. Nan-in respondeu: “Como essa xícara, você também está cheio de opiniões e idéias. Como posso mostrar-lhe o zen sem que antes você esvazie a sua xícara?” Quando nossa “xícara” transborda, perdemos a noção do tamanho real do que temos pela frente.
E este tem sido nosso trabalho constante neste primeiro ano em novas terras – não perder a noção real do que ainda temos pela frente. Após um ano, agradeço a mim mesma por ter tido esta consciência e ter esvaziado a minha “xícara” antes de chegar, pois mesmo tendo feito isso, a riquíssima – enquanto escolha e vontade própria - e emocionalmente desgastante experiência de imigrar nos obriga a quase que constantemente esvaziarmos nossa “xícara”.
Entre a indescritível sensação de prazer pela conquista de um sonho - a chegada - e o restabelecimento do novo “modus vivendi”, borbulham simultâneamente sentimentos complicados de se administrar como medo, insegurança, prazer, contemplação, saudades, riso, choro, angústia e toda a lista de sentimentos que o ser humano conhece em seu mais profundo significado!
Os três primeiros meses que, como o sopro do vento de um furação, te levam para cá e para lá sem nem mesmo perceber a troca de direção. A sensação de liberdade proporcionada pela conquista é tamanha que nem mesmo o melhor dos anestesistas com a droga mais potente do universo conseguiria simular o mesmo efeito. E assim seguem os três próximos meses completando o primeiro semestre da saga. Este é o tempo de duração da potente anestesia.
A partir daí sua razão começa a ser recobrada e o sistema nervoso já dá sinais ao cérebro (ah o cérebro! Este é o que mais sofre neste processo todo, ao menos o meu foi) de que você, durante todos estes primeiros meses foi tratado como bebê e agora já chega à adolescência. Enquanto adolescente em plena ebolição hormonal, chegam as dúvidas e alguns sentimentos de inadequação. Lembram quando éramos muito novos para entrar na festa que mais queríamos ir e, ao mesmo tempo, nos sentíamos muito “velhos” para usar uma roupa cafona info-juvenil que algum parente distante insistia em trazer pro Natal?
Pois é, a festa desejada pode ser, por exemplo, uma vaga de emprego qualquer na sua área de atuação (ou ao menos relacionado à algo que você saiba fazer) e a roupa cafona info-juvenil que você não quer mais usar é uma outra vaga no mercado de trabalho que, embora mais juvenil (vulgo “entry level” ou vaga para estudante, iniciante) também não serve para você porque você é “over qualified”- no caso do adolescente, "muito velho".
Um ano se passou e, embora saibamos que teriamos feito tudo de novo pela simples razão de nossa filosofia de vida ser calcada no fato de vivermos de acordo com os valores que nós acreditamos serem os melhores para nós, torna-se inevitável afirmar que os altos e baixos (neste começo bem mais baixos que altos) para quem escolhe comandar o rumo do barquinho de suas vidas, embora nos ensine muito, cobram um pedágio emocional bem pesado daqueles que optam por este caminho. Assim o é a vida de maneira geral, não apenas para o imigrante não é mesmo? Acontece que em imigrando tudo é elevado à enésima potência!
E para quem esperava um post comemorativo de um ano sobre as vantagens e desvantagens de se viver aqui e fazer o que fizemos, peço desculpas pois apesar de já celebrar a cada minuto as escolhas que fazemos por esta vida, ainda esvazio a minha “xícara” todos os dias para que ela não transborde e eu possa seguir acreditando nos meus sonhos.
E para celebrar nosso Primeiro Ano de Canadá, agradeço o apoio direto e indireto de todos aqueles que passaram e ainda passam pelos nossos caminhos! Também não preciso nem dizer (xi, já comecei a dizer:) ) que este é um depoimento estritamente pessoal baseado meramente no meu histórico de experiências de vida pré e pós imigração e que, portanto, acaba representando também a saga do melhor ser humano do mundo que eu escolhi para seguir em frente comigo e por estar em todas - o meu querido e sempre tão atento e atencioso marido Maurício.
Além de claro, seguir repetindo meus mantras pessoais e dois dos "top ten" saem direto da obra do poeta que, na minha opinião, melhor entendeu a alma humana - Fernando Pessoa:
"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À PARTE ISSO, TENHO EM MIM TODOS OS SONHOS DO MUNDO" (in Tabacaria)
e
“Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. Não florescem no inverno os arvoredos, Nem pela primavera Têm branco frio os campos." (in Cada coisa a seu tempo tem seu tempo).
Sem esquecer é claro do velho e bom "mentor espiritual" Zeca Pagodinho que já dizia -Deixa a vida me levar, vida leva eu ....kkkk E que venham os próximos anos!