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1.3.07

É a neve de março fechando o inverno


A cidade de Toronto está vivendo hoje a pior tempestade de neve deste inverno de 2007. Digo está vivendo porque só estou escrevendo agora pois fui dispensada mais cedo do trabalho (como quase toda cidade a contar pelo caos que estava lá fora) por conta do tempo.

Enquanto escrevo, o vento "uiva" lá fora juntamente com a neve que cobre a cidade. Normalmente eu uso o metrô e um trechinho pequeno de ônibus para ir e voltar da agência. Neste sentido sou uma das privilegiadas que trabalha no centro da cidade. O Maurício mesmo está , neste exato momento (17h43), na estrada desde às 15 mais ou menos. Não se preocupem está tudo bem (acabo de falar com ele) o negócio é que os carros precisam andar em passo de tartaruga e nem tem como ser diferente.

Bem, voltando à cidade. Esperei por meia hora no ponto de ônibus e claro que nada de ônibus. O cenário era de carros parados, não se via a diferença entre calçada e rua e havia muita neve acumulada e ainda caindo. Foi aí que resolvemos, eu a moça que também esperava, literalmente socar o pé na neve e ir caminhando para o metrô.

Claro que devidamente preparadas de bota de neve (que eu troco pelos sapatos decentes quando chego na agência e troco novamente para sair. Já me habituei a mais esta nova rotina) e capuz fomos lá para a nossa caminhada de quinze minutos até a estação do metrô mais próxima. Mesmo com toda a neve acumulada, andavamos mais rápido que qualquer um que estivesse dentro de um carro naquele momento.

No caminho encontrei donos das casas já tirando o acúmulo de neve na frente das calçadas, ciclistas (sim, ciclistas) que também iam mais rápido que os carros e a frente e os telhados das casas cobertos de branco! Claro que por se tratar ainda do meu primeiro inverno aqui acho essa paisagem muito linda (mesmo em um dia de caos como hoje) mas tenho certeza que podem passar duzentos invernos e eu vou continuar achando muito lindo.

Ao chegar em casa, mais cedo que o de costume, lembrei-me de uma das canções mais belas já compostas (Tom Jobim) e tão lindamente interpretada por Elis Regina - Águas de março. Como por aqui em março não cai água, a licença poética vai me permitir dizer que a paisagem de hoje "É a neve de março fechando o inverno" (fechando "numas" também licença e esta meteorológica)

A partir de amanhã, quando completo uma semana no novo trabalho, vou inciar uma série contando a minha experiência por lá. Adianto que estou AMANDO e além de já estar em plena atividade ainda por cima a minha "chefa" (Caldeirinha, usei este termo em sua homenagem. Embora continue achando que quem tem chefe é índio) pratica snowboard, surfa e é muito gente boa!

23.2.07

A batalha dos flocos de neve

Ontem era para ser apenas mais uma tradicional manhã de inverno na casa do casal Paula e Maurício em Toronto. Toca o despertador às seis e meia da manhã e ambos se preparam para suas atividades diárias - Maurício vai para o trabalho e a Paula vai para a sua última semana na escola do Co-op - Teria mesmo sido rotineira não fossem dois fatos extras combinados :

1- O meu marido, nesta manhã, ao invés de ir para o escritório saiu cedo para um mega evento de confraternização da empresa. Imaginem que a Rogers juntou cerca de 700 funcionários e levou para passar um dia inteiro em uma estação de esqui, há duas horas de Toronto, com tudo pago pela empresa (esta Rogers é uma mãe!)

2- A tempestade de neve

Todas as manhãs, o único trecho que eu caminho pela superfície (é, em fevereiro é de fato bem interessante esta conexão subterrânea do prédio com o metrô) leva apenas cinco minutos de caminhada pois a escola fica do lado da estação do metrô. Pois bem, estes cinco minutos naquela manhã foram muito interessantes e surreais em minha vida.
Mesmo antes de sair de casa já havia visto pela janela que nevava muuito! Então vesti minha super jaqueta impermeável e as excelentes botas de neve que neste mês mais parecem parte do meu corpo de tanto que tenho usado (e estão aprovadíssimas, não levei um tombo sequer até agora) e lá fui para a aula.

O trecho que andei entre a estação do metrô e a escola debaixo de neve foi suficiente para ver o cenário caótico e aproveitar para me divertir com ele. Não pode mudar o cenário? Divirta-se com ele!

Era cada flocão de neve! Fazia PLOFT PLOFT quando caía na minha cabeça bem protegida pelo capuz impermeável.

Em segundos vi guarda-chuvas - ou melhor "guarda-neves" - todos iguais, quero dizer brancos! A calçada se confundia com a rua, a minha calça jeans que costuma ser azul marinho ficou branca, o casaco também azul adivinhem que cor ficou? O negócio é que, pela primeira vez, andei debaixo da tempestade de neve contra o vento! Parecia que eu estava em um daqueles cinemas tridimensionais que os objetos saem da tela e vem com toda velocidade em sua direção. A diferença é que os mega flocos realmente atingiam meu rosto.

Aproveitei o que minha fértil imaginação chamou de "a batalha dos flocos de neve" para brincar com os flocões "inimigos". Testava onde eles iam me acertar conforme o movimento que fazia com a cabeça. Se olhasse para o chão os flocões atingiam meus lábios (hum, praticamente uma raspadinha fresca, só faltou a groselha) . Ao levantar a cabeça atingiam meus olhos. Hum ,aí não há nada de gostoso nisso. Melhor ficar com a cabeça ereta mesmo e tomar uns flocões na bochecha de vez em quando. Diversão garantida ou seu dinheiro de volta. Claro que só me diverti deste jeito porque o tempo de exposição foi pequeno né! Isso foi pela manhã.

Quando voltava do curso que estou fazendo no Seneca , lá pelas 10 e meia da noite, não tive mais que efrentar os FLOCÕES.. agora eram apenas floquinhos. Ah que pena! agora não podia brincar de batalha da neve. Entro no ônibus e escuto na secretária eletrônica do meu celular a mensagem mais surreal da minha vida deixada pelo marido.

"Paula, o passeio foi ótimo. Esquiei o dia todo mas agora estamos presos na estrada em uma tempestade de neve. Então vou chegar tarde em casa, ou melhor, nem sei se vamos chegar hoje. Te ligo mais tarde".

Foi uma mistura de cena surreal com algo do tipo - já esperava por isso pois se os flocões estavam atacando Toronto porque não atacariam as redondezas? Uma hora mais tarde o marido chega também feito uma criança feliz contando a nova experiência de vida!

É, certamente, nesta quinta-feira vivemos experiências de um dia de inverno de verdade! Ainda assim continuo preferindo a neve à chuva, as tempestades de neve às enchentes. O inverno ao verão (gosto do verão e aproveito muito quando ele chega mas gosto mais do inverno). Como dizem as minhas queridas amigas que deixei no Brasil - "Paula, você não nasceu para o clima dos trópicos"