28.6.07

Fim do Co-op - Abolição da escravatura!

E aboliu-se a escravatura! Não! Não aquela da Princesa famosa de nome Isabel que todos estudamos no colégio. Também não estou ficando louca achando que o tempo voltou em 13 de maio de 1888. Eu apenas terminei os 4 meses de trabalho gratuito – atentem bem para a diferença entre trabalho gratuito e voluntariado – lá no Co-op na sexta-feira que passou.

Espera aí. Co-op? Que raios é isso? Lembro-me da primeira vez que li esta sigla pequena em tamanho mas tão gigante em significado e intensidade na vida do imigrante recém-chegado querendo se recolocar no mercado de trabalho aqui em Ontario (principalmente aqueles como eu da área de humanas e mais ainda de comunicação. Não preciso nem explicar muito que a exigência neste campo é bem mais dura pois trabalhamos com comunicação. Em outro idioma lembram?).

Pois bem, a primeira vez que vi a palavra Co-op estava eu ainda no Brasil e me perguntei – há cerca de um ano – que raios é isso? E agora, passados quase 10 meses de Toronto e 4 meses de Co-op venho eu aqui relatar minhas impressões. Os Co-ops não existem para o Imigrante, na realidade são parte do sistema público educacional de Ontário criado para ajudar estudantes do High-school, ainda sem experiência no mercado de trabalho, a encontrar um estágio não remunerado na área que melhor couber ao estudante em questão. Há também mulheres Canadenses que ficaram muito tempo fora do mercado de trabalho e querem voltar. Na minha sala fiz uma grande amiga Canadense dos seus 50 anos que ficou 8 anos fora do mercado e está lá batalhando para voltar. Gente finíssima!

E tirando alguns pontos negativos (para tudo nesta vida há os dois lados da moeda e com este programa não seria diferente mas eu listarei em outro post), no meu caso este programa valeu OURO! Por meio dele, consegui o meu primeiro trabalho no Canadá em uma agência de Comunicação, a minha primeira referência de empregadora Canadense na minha área e pude mudar totalmente a “cara” do meu currículo com tudo que fiz nestes 4 meses de escravidão - digo de estágio.

Normalmente o período que rege a lei da escravatura é de 3 meses. Entretanto, como o meu estágio foi o primeiro a ser encontrado acabei trabalhando por um mês há mais. Bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque tive mais tempo de construir uma relação mais firme e duradoura com a dona da agência que está neste mercado há 11 anos e conhece deus e o mundo. Ruim psicologicamente falando. Quando comecei o quarto mês tive que contar muito com o forte apoio do maridão que ficava todos os dias me lembrando do investimento à longo prazo que eu estava fazendo.

Fala sério, trabalhar de graça não tem graça nenhuma com o perdão do trocadilho! E é um baita de um choque principalmente para nós brasileiros (estava dando uma entrevista para um autor canadense que vai escrever um livro para imigrantes e falando sobre isso esta semana mas aí é um outro post) que mesmo quando começamos a nossa carreira como estagiários estudantes ganhamos um dinheirinho, é pouco mas é um dinheirinho poxa!

O meu primeiro estágio na vida foi no último ano de faculdade na Bloomberg e lembro-me muito bem que me pagavam $500 reais para trabalhar. Apague tudo isso de sua memória quando você chegar por aqui! Culpa dos Americanos que inventaram o sistema Co-op e – pior – dos Canadenses que copiaram. Que falta fez o Getulio Vargas por aqui!

Brincadeiras à parte, devo dizer que não fosse a escravidão de 4 meses não estaria recebendo ligações de recruiters e engatando em algumas entrevistas bem interessantes. Três dias depois de ter atualizado o meu currículo com o estágio que fiz aqui, recebi duas ligações de recruiters de duas agências diferentes e uma delas inclusive me arrumou uma entrevista muito da interessante que fiz ontem. Detalhe – antes disso, o meu currículo ficou acho que uns seis meses no Workopolis e nunca havia recebido sequer uma ligação! Então comprovadamente o sistema de escravidão funciona! É sofrido mas funciona.

Ah, não fui efetivada no estágio. Embora uma minoria em uma sala de 150 alunos (cerca de 10 eram estudantes canadenses o resto tudo imigrante) tenha conseguido ou contratos de dois meses como extensão do estágio ou até mesmo uma ou outra efetivação, não é este o objetivo destes programas. A frase que você mais ouve lá é “o nosso trabalho não é arrumar emprego para vocês, é construir a experiência canadense e quebrar a primeira barreira, colocar o pé de vocês na porta de um empregador na sua área”.

E esta missão foi mais do que bem cumprida! Ontem mesmo estava trocando idéias com a dona da agência onde trabalhei sobre como conduzir a entrevista em outra agência. A mesma que me escreveu uma excelente carta de recomendação e disse que fará o que puder para me ajudar a arrumar trabalho. Enfim, esta relação que construí com ela e com a rede dela não tem preço e tenho certeza que me renderá frutos em um futuro não muito distante daqui.

Nos próximos posts vou contar um pouco da formatura na escola do Co-op, da minha entrevista com o autor canadense sobre o projeto dele e sobre como isso acabou me levando para outra indicação, além de algumas pedrinhas que aparecem no caminho do imigrante. Enfim, estou bem tranquila e segura do caminho que escolhi (mais longo e gradativo) para voltar para a minha área por aqui e o mais importante de tudo as coisas estão acontecendo. Com o tempo chego lá. Fernando Pessoa – na pele de Ricardo Reis -certa vez escreveu “Não florescem no inverno os arvoredos, nem pela primavera têm branco frios os campos...Tudo ao seu tempo, tem seu tempo”.


8 comentários:

Leslie disse...

Quando digo que falta pouco, muito pouco para vc conseguir se inserir no mercado de trabalho canadense... tenho certeza disso como dois e dois são quatro. Autor canadense??? To louca para saber desta história... bjs

Dani e Rafa disse...

Oi.
Apesar de eu nunca ter conseguido meus empregos por aqui pelas famosas agencias, eu sempre escuto boas historias e mtas recomendações de que esta é a melhor maneira de se recolocar no mercado canadense. A agencia trabalha duro para encontrar algo que atenda as suas expectativas e a necessidade da empresa.. Boa sorte na pesquisa, vai treinando as entrevistas pq vira e mexe aparece alguma coisa diferente...Beijos e sucesso!!

Anônimo disse...

Um, dois, três e logo logo chega o tão esperado emprego ...

O negócio é aproveitar cada dia que passa !
Meus dedos estão cansados ... keep crossing ... :))

Logo estaremos dando risadas lembrando do começo tão sofrido !!!

beijos e sucesso !
Nós (viajantes ...)

Camila disse...

Uau!!!

Acompanho o blog já tem um tempo e achei realmente impressionante a mudança na aceitação depois que você atualizou o currículo. Eu apostaria que semana que vem você já tem uma oferta!

Muito legal, parabéns!!!

Bjo,

Camila.

Cris disse...

Paula, que bom que as coisas estão melhorando. Só para constar, sou farmacêutica e meus estágios aqui no Brasil (necessários para a conclusão da faculdade)sempre foram gratuitos. O Getúlio deveria ter instituído estágio remunerado para todas as áreas rsrs.
Bom, tomara que vc consiga o seu primeiro emprego canadense E REMUNERADO em breve.
Bjs
Cris

Jeanne disse...

Paula, apesar de tudo você conseguiu "estagiar" na sua área e isso já é meio caminho andado. Fico assustada quando vejo pessoas com quase 1 ano de Canadá e que nem isso ainda conseguiram. Dá medo que aconteça o mesmo conosco.
Felizmente com você foi diferente e tenho certeza de que mais cedo ou mais tarde alguma coisa legal vai aparecer.
"Quem sabe faz a hora não espera acontecer!"
Sucesso!
Bjs
Jeanne

Carol & Fernando disse...

Oi Paula, trabalhar de graça não é fácil mesmo, mas vale o sacrificio, pelo menos para conseguir um emprego na sua área. Tenho certeza que logo você receberá uma ótima proposta de trabalho. Força nesta nova etapa! Beijos, Carol

Caldêra disse...

Daqui a bem pouco chega o emprego da plaquinha. Aprendi com uma amiga que ele seeeempre vem.
te amo!
saudades
Caldêra